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Análise: Brasil estreia novo ciclo com futebol pobre e velhos problemas diante da Austrália

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Seleção fica no 1 a 1 em Townsville, sofre para criar, perde o controle do meio-campo e só evita a derrota no último lance; Vini Jr., Raphinha e Endrick decepcionam

O resultado pode até ser tratado como um simples amistoso, mas a atuação da Seleção Brasileira diante da Austrália deixou pouco espaço para interpretações otimistas. No primeiro compromisso depois da Copa do Mundo e na abertura de um novo ciclo sob o comando de Carlo Ancelotti, o Brasil apresentou um futebol fraco, desorganizado e inconsistente, repetindo problemas que já haviam aparecido anteriormente.

O empate por 1 a 1, nesta sexta-feira (25), em Townsville, só não terminou em derrota porque Rayan apareceu no último lance para marcar de cabeça após cobrança de escanteio de Raphinha. Antes disso, a Seleção havia sido incapaz de transformar sua superioridade técnica em domínio efetivo da partida. Irankunda colocou os australianos em vantagem no segundo tempo, e o Brasil precisou correr atrás do prejuízo até os acréscimos.

Mais preocupante do que o placar foi a maneira como a equipe jogou.

Um time sem identidade, controle e capacidade de reação

O Brasil começou a partida de maneira apática. A saída de bola era lenta, os passes errados se acumulavam e o meio-campo não conseguia oferecer alternativas para quem tinha a bola.

A Austrália, mesmo sem possuir o repertório técnico brasileiro, encontrou espaços, pressionou a saída e conseguiu incomodar uma equipe que deveria assumir naturalmente o controle do jogo.

A estrutura montada por Ancelotti também merece questionamentos. Com quatro jogadores de características ofensivas — Estêvão, Raphinha, Endrick e Vini Jr. — o Brasil ficou excessivamente dependente de jogadas individuais e perdeu força justamente no setor que deveria organizar a partida.

O problema não foi simplesmente ter muitos atacantes. Foi não conseguir fazer esses jogadores funcionarem coletivamente.

A equipe ficou espaçada, pouco agressiva na recuperação da bola e previsível quando precisava atacar uma defesa organizada. A análise do Lance aponta justamente a dificuldade brasileira para controlar o meio-campo e a repetição de problemas observados ainda na Copa.

Vini Jr. longe do jogador que o Brasil precisa

Vini Jr. foi um dos símbolos da atuação abaixo da expectativa.

O atacante do Real Madrid teve dificuldades para superar a marcação australiana, errou passes e participou pouco das principais ações ofensivas. Em vez de ser o jogador capaz de desequilibrar a partida, acabou preso em uma atuação discreta e medíocre.

Não se trata de questionar a capacidade técnica de Vini, mas de constatar o que aconteceu em campo: quando a Seleção mais precisava de seu principal jogador ofensivo, ele não conseguiu assumir o protagonismo mais uma vez.

O próprio Ancelotti havia reconhecido antes da partida que Vini atravessa um momento abaixo do nível que pode apresentar. No início da temporada, o brasileiro tinha um gol e três assistências pelo Real Madrid, números bem inferiores aos de Raphinha no mesmo período.

Contra a Austrália, essa diferença também apareceu dentro de campo.

Raphinha: participação importante, mas atuação abaixo do esperado

Raphinha também esteve longe de entregar uma atuação convincente.

O jogador teve dificuldades para encontrar espaços e não conseguiu impor o mesmo impacto que vem apresentando no Barcelona. A situação é ainda mais curiosa porque Ancelotti chega a destacar publicamente o excelente momento vivido pelo atacante no clube espanhol, onde vem atuando como falso nove.

Na Seleção, entretanto, o funcionamento foi outro.

Raphinha terminou a partida participando diretamente do gol brasileiro ao cobrar o escanteio que encontrou Rayan na área. Foi uma contribuição importante, mas insuficiente para apagar uma atuação em que o setor ofensivo produziu muito pouco durante boa parte dos 90 minutos.

Endrick sente a falta de ritmo e pouco aparece

Endrick talvez tenha sido o caso mais delicado.

O atacante recebeu uma oportunidade importante como titular, mas teve dificuldades para entrar no jogo. E existe um contexto que não pode ser ignorado: ele chegou à Seleção com apenas quatro minutos disputados pelo Real Madrid na temporada europeia, de acordo com levantamento publicado pelo UOL antes dos amistosos.

A falta de ritmo ficou evidente.

Endrick não conseguiu oferecer presença ofensiva constante, teve pouca participação na construção e encontrou dificuldades para incomodar a defesa australiana. Para um jogador que precisa justamente de sequência para recuperar confiança e ritmo competitivo, a titularidade na Seleção poderia representar uma oportunidade importante. Desta vez, porém, ela não se transformou em boa atuação.

É preciso separar, portanto, a crítica ao desempenho da avaliação sobre o futuro do jogador. Endrick ainda é jovem e atravessa um momento de pouca utilização no clube. O problema apresentado em Townsville foi o que ele conseguiu produzir naquele jogo.

A Seleção mudou os nomes, mas não mudou o problema

Esse talvez seja o ponto mais preocupante da estreia.

A Seleção iniciou um novo ciclo, mas apresentou velhos defeitos. Ancelotti teve pouco tempo para trabalhar e ainda está conhecendo melhor algumas peças. Além disso, a equipe conta com jovens que precisam de experiência internacional.

Tudo isso é verdade.

Mas também é verdade que um time comandado por um dos treinadores mais experientes do futebol mundial não pode depender exclusivamente de talento individual para criar oportunidades.

O Brasil precisa ter uma ideia de jogo.

Precisa saber sair jogando, controlar o meio-campo, pressionar quando perde a bola, ocupar os espaços e criar mecanismos para que jogadores como Vini Jr., Raphinha e Endrick recebam a bola em condições favoráveis.

Contra a Austrália, nada disso apareceu de forma consistente.

Rayan salva o Brasil de uma estreia ainda pior

No meio de uma atuação decepcionante, Rayan foi a exceção.

O atacante entrou no segundo tempo e apareceu no momento decisivo para marcar o gol de empate aos 49 minutos. O lance evitou uma derrota que seria ainda mais incômoda para uma Seleção que teve enormes dificuldades diante de um adversário tecnicamente inferior.

O gol também mostra uma das características positivas de um processo de renovação: jogadores jovens precisam aproveitar as oportunidades quando elas surgem.

Rayan aproveitou.

Os jogadores mais badalados do ataque brasileiro, não.

O empate serve de alerta para Ancelotti

Não é razoável transformar um amistoso no início de uma sentença definitiva sobre o trabalho de Ancelotti. O ciclo até 2030 está apenas começando, e o treinador ainda terá muitos jogos para testar jogadores, sistemas e alternativas.

Mas o empate com a Austrália serve como alerta.

O Brasil não perdeu porque Rayan apareceu no último lance. E justamente por isso o resultado não deveria esconder o desempenho.

A Seleção teve dificuldades para construir, não controlou o meio-campo, criou pouco, abusou de bolas longas e passou boa parte do jogo sem conseguir impor sua superioridade técnica. A análise pós-jogo do Lance também destacou o excesso de ligações diretas e a falta de criatividade da equipe.

Um novo ciclo não significa apenas trocar jogadores.

Significa mudar comportamentos.

E, em Townsville, a Seleção Brasileira mostrou que ainda tem muito trabalho pela frente.