Aos 41 anos, maior artilheiro da história das seleções se despede após 23 anos, deixando um legado de recordes e títulos com a camisa portuguesa
Cristiano Ronaldo anunciou nesta quinta-feira (5) sua aposentadoria da seleção de Portugal, encerrando uma trajetória de 23 anos marcada por conquistas históricas, recordes e protagonismo internacional. Aos 41 anos, o atacante comunicou a decisão por meio de uma carta divulgada em vídeo nas redes sociais, poucos dias antes de uma nova convocação do técnico Jorge Jesus.
Na mensagem de despedida, o camisa 7 destacou o privilégio de ter representado seu país e exercido a função de capitão. O jogador também agradeceu aos companheiros de equipe e afirmou que continuará acompanhando e torcendo pela seleção portuguesa.
A decisão ocorre semanas depois de um desentendimento com Jorge Jesus, episódio que provocou desgaste na relação entre o treinador e o principal nome da história do futebol português.
Desentendimento com Jorge Jesus antecedeu despedida
A crise começou no fim de setembro, durante a última Data Fifa, quando Cristiano Ronaldo não foi utilizado na vitória de Portugal sobre a Noruega, apesar de ter realizado aquecimento durante parte do segundo tempo.
O episódio ganhou repercussão após declarações de Jorge Jesus em entrevista coletiva. Insatisfeito com a situação, Ronaldo deixou a concentração da seleção minutos antes de um treinamento. O treinador, por sua vez, elogiou a trajetória do atacante, mas reafirmou sua autoridade sobre as decisões técnicas.
Dias depois, o jogador do Al-Nassr publicou um comunicado acusando o treinador de descumprir acordos. Posteriormente, pediu desculpas por ter abandonado a concentração e declarou que permanecia disponível para defender Portugal.
A Federação Portuguesa de Futebol aplicou uma suspensão de 30 dias e multa de 255 euros, aproximadamente R$ 1,4 mil. Embora a punição tenha terminado em 30 de outubro, Ronaldo optou por encerrar sua trajetória internacional antes dos últimos compromissos da equipe em 2026.
Segundo a imprensa portuguesa, o atacante ainda integrava a pré-lista de Jorge Jesus para a próxima convocação.
Uma carreira histórica com a camisa de Portugal
Cristiano Ronaldo estreou pela seleção principal em agosto de 2003 e construiu uma das carreiras mais vitoriosas da história do futebol internacional.
Em 23 anos defendendo Portugal, o atacante acumulou 243 partidas e 146 gols, números que o colocam como recordista de jogos e maior artilheiro do futebol masculino de seleções, conforme os dados apresentados.
Seu principal título foi a Eurocopa de 2016, conquistada diante da França, anfitriã da competição. A vitória representou o primeiro grande troféu internacional da história da seleção portuguesa.
O atacante também participou das conquistas da Liga das Nações em 2019 e 2025, consolidando uma geração que colocou Portugal entre as principais forças do futebol europeu.
Em Copas do Mundo, Ronaldo disputou seis edições, encerrando sua participação no torneio em 2026, aos 41 anos. Entre suas marcas mais expressivas está o feito de se tornar o primeiro jogador a marcar gols em cinco Mundiais diferentes.
Fora da seleção, Cristiano Ronaldo segue em busca do milésimo gol
A despedida de Portugal não representa o fim da carreira profissional de Cristiano Ronaldo. O atacante continuará defendendo o Al-Nassr, da Arábia Saudita, onde mantém o objetivo de alcançar uma das marcas mais simbólicas de sua trajetória: o milésimo gol.
Com 985 gols na carreira, segundo os números informados, o português está a apenas 15 de atingir a marca histórica.
Cristiano Ronaldo deixa a seleção como o maior símbolo de uma geração que transformou Portugal em protagonista do futebol mundial. Mais do que os recordes individuais, sua trajetória fica marcada pela liderança, longevidade e participação decisiva nas maiores conquistas do país.
Confira a carta de Cristiano Ronaldo na íntegra:
“Aos portugueses, chegou o dia de devolver a camisa 7 da seleção de todos nós. Nunca senti como exclusivamente minha, mas durante 23 anos tive o privilégio e a responsabilidade de vestir, de defender e de levar comigo para estádios do mundo inteiro. Hoje chegou o momento de entregar ao futuro. Não foi uma decisão fácil, porque decisões não se tomam apenas com a cabeça, se tomam também com o coração.
Termina uma caminhada que começou em agosto de 2003 e mudou a minha vida para sempre. Quando olho para trás e penso em tudo que vivi pela seleção não vejo apenas jogos, gols, recordes ou troféus. Vejo o que sou hoje. Vejo imigrantes que durante noventa minutos sentiam Portugal um pouco mais perto. Vejo milhões de portugueses que nunca conheci pessoalmente, mas fizeram parte da minha vida. No fim de tudo, futebol é muito mais que um jogo. O futebol são as pessoas.
Durante toda a minha carreira na seleção procurei superar os meus limites, quis ganhar, quis ser o melhor, quis fazer história. Sempre fui exigente comigo próprio, sempre quis mais, sempre acreditei que podíamos chegar mais longe e dei tudo o que tinha por essa camisa. Houve tardes e noites perfeitas, houve vitórias que nunca esquecerei, houve derrotas que ainda hoje me custam a recordar. Também falhei, também sofri, também houve momentos que não fui capaz de dar aos portugueses aquilo que tanto desejava. Mas nunca desisti.
Acima de tudo nunca deixei de sentir orgulho por representar Portugal. Ao longo desses anos aprendi coisas muito simples. Os gols passam, as taças ficam nos museus, os recordes acabam por ser batidos, mas há algo que o tempo nunca consegue apagar: o lugar que ocupamos no coração das pessoas. Se alguma vez fiz vocês felizes, se alguma vez um gol meu fez vocês abraçarem alguém, fez alguma pessoa sentir orgulho do próprio país, então tudo valeu a pena. Porque ser português também é isso.
Sofremos juntos, levantamos juntos, acreditamos outra vez. Portugal precisará sempre de jovens que sonhem, de jogadores que nunca desistam, de novas gerações que acreditem em chegar onde ninguém chegou. Porque um país que continua a criar novos heróis é um país que nunca deixa de acreditar em si mesmo.
Aos meus companheiros de seleção, quero deixar uma palavra especial. Obrigado por cada corrida, por cada abraço, por cada discussão, por cada silêncio antes de entrar em campo. Por cada vitória que celebramos juntos e por cada derrota que nos tornou mais fortes. Tive o privilégio de ser vosso capitão, mas nenhum capitão caminha sozinho. E vocês fazem parte da minha história.
A todos os treinadores, dirigentes, médicos, fisioterapeutas, roupeiros, funcionários e a tantas pessoas que trabalharam comigo ao longo destes anos, o meu obrigado. Muitos de vocês nunca apareceram nas fotografias, mas sem vocês nenhuma dessas fotografias teria sido possível.
À minha família, obrigado por dividir comigo esse sonho. Obrigado por entenderem as ausências, os sacrifícios e os momentos em que a seleção teve que ocupar um espaço que também pertencia a vocês. Se cheguei tão longe, foi porque sempre estivemos de mãos dadas.
E aos portugueses, a todos os portugueses espalhados pelo mundo, quero dizer uma última coisa. Há uma imagem que sempre levarei comigo: o momento em que começa o hino nacional. Olho ao meu redor, vejo meus companheiros, vejo as arquibancadas, vejo crianças, mães, pais e avós, vejo portugueses que vieram de tão longe apenas para estar ali. E durante aqueles minutos deixamos de ser diferentes. Não existem clubes, não existem cores, não existem classes, não existem profissões, não existem opiniões. Existe apenas uma paixão: Portugal.
Esse sentimento levarei comigo para o resto da vida. Hoje termina minha caminhada dentro de campo com a seleção. Saio de cabeça erguida, com orgulho do caminho que fiz e com a consciência de que dei tudo o que tinha por Portugal. Mas nunca deixarei de ser um de vocês. Vou continuar sofrendo, vibrando e comemorando cada vitória de Portugal com o coração.
Passei a minha vida a trabalhar para ser o melhor jogador do mundo. Hoje percebo que a maior vitória foi ter merecido representar o melhor país do mundo. Obrigado por esses 23 anos. Obrigado por terem acreditado em mim. Obrigado por me permitir viver um sonho que começou quando eu era apenas um menino, na Madeira, correndo atrás de uma bola.
A camisa 7 fica, o orgulho de ter vestido será meu para sempre. Portugal sempre estará em mim.
Até sempre, Cristiano Ronaldo.”


