Ex-goleiro do Flamengo cria empresa para apoiar atletas no pós-carreira e critica falta de preparo dos clubes: “Há um buraco de informação”
Após 25 anos dedicados ao futebol profissional, Diego Alves decidiu transformar a própria experiência em ferramenta de apoio para outros atletas. Aposentado desde o início de 2025, o ex-goleiro vive agora um novo capítulo: ajudar jogadores a lidar com a transição de carreira — um processo que, segundo ele, ainda é negligenciado dentro do esporte.
“O atleta vive sob uma rotina intensa, com treinos, viagens e competição. De repente, isso acaba. E é preciso reconstruir a vida. É um momento de flutuação”, resume.
A decisão de encerrar a carreira veio após uma grave lesão no joelho direito, sofrida ainda no período em que defendia o Celta de Vigo. Durante a recuperação, Diego já iniciou o processo de adaptação fora dos gramados, participando de eventos e ampliando seu círculo de contatos.
Negócio com propósito
O aprendizado virou projeto. Em parceria com João Pedro Castilhos, dirigente do Osasuna, o ex-goleiro fundou a empresa Nexus, voltada ao desenvolvimento integral de atletas.
A proposta vai além do aspecto financeiro. A iniciativa trabalha cinco pilares: transição de carreira, saúde mental, organização financeira, construção de marca pessoal e empreendedorismo.
“Você dedica 15, 20 anos ao futebol e ainda tem décadas de vida pela frente. Não dá para viver só do passado. Mesmo planejando, é um processo difícil”, admite.
Exemplo dentro de casa
Durante sua passagem vitoriosa pelo Flamengo — onde conquistou 11 títulos e disputou 217 partidas — Diego conviveu com casos que hoje usa como referência. Um deles é o de Filipe Luís, que se reinventou rapidamente após a aposentadoria.
O ex-lateral iniciou a carreira como técnico nas categorias de base e, em pouco tempo, alcançou o time principal, acumulando conquistas expressivas.
“Todo mundo vê o sucesso, mas poucos enxergam o processo. Ele começou do zero, estudou, abriu mão de conforto e pagou o preço. Desceu tudo que tinha subido como jogador para recomeçar como treinador”, destacou Diego.
Olhar para o fim da carreira
Outro nome citado é o de Danilo, que já projeta a reta final como jogador. Para Diego, o zagueiro representa um perfil raro: o atleta que entende seu novo papel dentro e fora de campo.
“O ego precisa ser trabalhado. Você deixa de ser aquele jogador de 20 anos e passa a contribuir de outras formas. Quem entende isso, larga na frente na transição”, explicou.
“Falta educação nos clubes”
Apesar das iniciativas individuais, Diego Alves faz um alerta direto: os clubes ainda falham na preparação dos atletas para o pós-carreira.
“Existe uma carência enorme de informação. Muitas vezes o foco está só na performance e na venda do jogador. Educação financeira e mental deveriam ser prioridades”, criticou.
Segundo ele, o impacto da aposentadoria vai além do campo profissional. A ausência de rotina, a perda de visibilidade e a mudança de identidade podem gerar crises profundas.
“Não tem mais torcida, não tem mais entrevista, não tem mais holofote. Existe uma dor real — e muitos atletas se perdem nesse processo.”
Preparação começa antes do fim
Para evitar esse cenário, o ex-goleiro defende que o planejamento da aposentadoria comece ainda durante a carreira ativa.
“A transição não pode começar quando tudo acaba. Ela precisa ser construída antes. Cada atleta tem uma dúvida, um medo, um caminho. Nosso papel é ajudar a organizar isso e dar orientação”, concluiu.


